Crónica Pouco Original do Medo

Uma vez o Alexandre O’Neill escreveu uns versos sobre o Medo que são de guardar na algibeira. É um poema em forma de caminho de cabras, delgadinho, onde o sujeito serpenteia muito seguro atrás de um rato. O primeiro verso diz logo ao que vem: O medo vai ter tudo. E vai por ali fora descrevendo como irá ser isso e prevenindo que nada está a salvo: Pernas. Olhos onde ninguém os veja. Milagres. Conferências várias. Óptimos empregos. Costureiras reais e irreais. Suspeitas como toda a gente. Muitíssimos amigos. A tua voz talvez. Talvez a minha. Com certeza a deles. Para citar algumas das entidades de que se irá apropriar. E depois de ter um punhado de coisas, depois de a serpente ter crescido muito, o sujeito poético vem e resume: Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer.

Uma espécie de pescadinha de rabo na boca.

O’Neill terá escrito isto por volta de 1960, com a ditadura em velocidade de cruzeiro e o medo gordíssimo a serpentear entre analfabetos e esfomeados. Quem não tinha medo da PIDE tinha medo do Inferno. A pobreza era uma alegria e a grande riqueza era dar e ficar contente. Era só um trabalho: o que agradava à pátria agradava a deus. Mas o poema não era para o povo, que nem sequer o sabia ler. Era para os outros: Operários (assim assim). Escriturários (muitos). Intelectuais (o que se sabe).

Conta o poeta em certa entrevista que teve a sorte de ver o seu labor desactualizado, referindo-se naturalmente à conquista da democracia. Mas que pouco tempo depois percebeu que o que tinha escrito até 1974 não estaria afinal assim tão fora de moda. Deus não morreu, multiplicou-se. E o elogio da pobreza na grande riqueza de dar e ficar contente está bem, muito obrigada. Nem a obra fica desactualizada com a queda da ditadura, n em descontextualizada se for usada para falar do resto do mundo. O medo é um lubrificante universal.

Que vende, as igrejas que o digam. As igrejas, as ditaduras, alguns produtores de comida. Milagres. Cortejos. Frases corajosas. Meninas exemplares.

Pinta-se o inferno e vende-se a salvação. A cada qual o seu diabo, que como se sabe está nos detalhes ou na lista de ingredientes. O medo, afinal, vai ter tudo.

É uma questão de publicidade, uma área que também não era alheia ao O’Neill, e quem já passou pelas cartilhas da área sabe que um dos seus princípios básicos é: Conhece o teu cliente.

Conferências várias. Documentários muitos. Estudos em ratos. Heróis. Activistas. Intelectuais (o que se sabe). Alternativas. Narrativas. A tua voz talvez. Talvez a minha. Projectos altamente porcos.

A publicidade gratuita das redes sociais (Muitíssimos amigos) não passa por slogans à O’Neill, em que se dizia bem do produto que se queria vender de uma maneira mais ou menos criativa. Passa antes por denegrir a concorrência, propagar o que “eles não querem que se saiba”. Mãozinhas cautelosas, Enredos quase inocentes, o segredo mal guardado de que nos andam a matar com venenos disfarçados de comida e de remédios. E apresentar uma alternativa.

O mercado alternativo conhece bem o seu cliente e de falta de talento ninguém pode acusá-lo. Vende o seu peixe a quem o compra e recruta ajuda para a propaganda entre os incautos que por amizade ou sobranceria acabam por partilhar a tal “verdade”.

A verdade é uma coisa sobrestimada e esta em particular é bastante apelativa – promete saúde (que é uma coisa que o cliente estima), estatuto (porque o cliente enquanto está vivo gosta de ser admirado) e paz de consciência através de uma poderosa narrativa anti-lucro que dê as voltas que der há-de ficar sempre bem entre o pão e o vinho sobre a mesa na alegoria das quatro paredes caiadas.

Quando O’Neill escreveu o Poema Pouco Original do Medo não havia químicos no pão, no caldo e no cheirinho a alecrim; as pessoas cultivavam a própria comida e eram sobretudo vegetarianas; fabricavam os próprios remédios e morriam de morte natural. Também não iam muito à escola nem viajavam como vascos da gama, viam televisão em assembleia na casa do vizinho que a tinha e passavam os dias em família, enquanto se mondava a agricultura de que subsistiam. Também deviam ler muito visto que “hoje em dia não se lê nada”. Era um mundo sem donos em que o dinheiro não mandava e a gente vivia em plena harmonia com a natureza.

Sabe-se disso hoje graças às aparelhagens internéticas, não obstante os avisos dos activistas Friends of the Earth por volta de 1980, que preveniam sobre os perigos dos computadores como sendo uma maquinação dos governos para manipular os cidadãos em regime de controlo remoto. Actualmente é esse o meio que a organização usa para alertar sobre novas formas de domínio, nomeadamente os organismos geneticamente modificados e outras paranóias através de um ensarilhado anti-ciência e anti-corperativismo que desarma as leis mais elementares do pensamento racional.

Já dizia o outro que a condição para que um segredo se mantenha guardado entre três pessoas é que duas delas estejam mortas. Por isso é que a “verdade oculta” é partilhada amigo-sim-amigo-não nas redes sociais, dá em documentários da televisão pública e tem honras de isenção de IVA nos programas dos governos. Porque o consumidor é um grande político e nem sempre pelos caminhos que pensa.

Há um certo supermercado, um supermercado vulgaríssimo, que substituiu os espinafres congelados de proveniência ordinária por outros de proveniência “biológica”. As aspas vão porque a apropriação da palavra é extraordinariamente irritante. Quase como se de repente os espinafres ordinários fossem de proveniência geológica e além disso a um terço do preço. Podiam ter mantido os dois cultivando o livre-arbítrio, que é capaz de ser um dos frutos mais nutritivos nas leiras que Abril plantou.

A questão é que o tal supermercado conhece melhor do que nunca o seu cliente e provavelmente é seu amigo no facebook, de maneira que não o faz por menos: tira-lhe o inferno dos químicos e refaz a arca com o paraíso do natural.

As mercearias começam a estar pela hora da morte para quem não tem medo nem O luxo blindado de alguns automóveis. A cada ítem tirado (seja os “químicos”, o glúten, a lactose, os OGMs e por aí fora) cresce alguma coisa ao preço. Ao fim e ao cabo são demónios que se matam, não deve ficar barato.

Bonito, bonito era uma etiquetazinha aos coliformes, salmonelas e aflatoxinas. E já agora sabermos os nomes das empresas de armas como sabemos o de certa empresa de sementes.

Todos os dias há descobertas acerca de alguma coisa que faz terrivelmente mal ou de outra que vai curar todos os males. No entanto parece que a fórmula consensual continua a ser a boa e velha quantidade generosa de vegetais e frutas dentro de uma alimentação omnívora variada. Tudo lavadinho, inclusivamente as mãos. Seja como for, para viver é preciso ir morrendo e a ortorexia deixa os Namorados esverdeados.

Naturalmente que a dieta à base de cuidado e caldos de galinha é altamente recomendável. Hoje, mais do que nunca, é possível ler a composição dos alimentos e procurar saber o que são. Rejeitar tudo o que as avós não reconheceriam é um conselho tonto que as próprias avós seriam capazes de condenar. A ignorância, e parece que aqui o consenso é de peso, é definitivamente um veneno. Além disso a engenharia genética é só um enxerto de precisão, o cruzamento de espécies (que se vem fazendo há milénios) através de raminhos microscópicos. Não é um ingrediente.

O problema da demonização gratuita é poder degenerar em tragédias, umas maiores e outras de andar por casa. Perder o prazer de comer a matematizar o que se come aguenta-se bem, pagar dobros por comidas idênticas é uma manifestação de estatuto como outra qualquer.

No entanto os surtos de doenças que as vacinas podem prevenir, a destruição de comida por activistas-caviar em sítios onde ela escasseia, a proibição de tecnologia que faz tanta falta como pão para a boca na optimização da agricultura para minimização dos impactos ambientais (e outros), as mortes pela negação de tratamentos médicos assentes em teorias da conspiração e por aí fora fazem lembrar que a serpente de O’Neill não parou de crescer e que

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos.

E oxalá que nesse dia não nos toque um Séralini porque o mais certo é acabarmos num estudo muito duvidoso a provar que o glifosato é o diabo em spray que só o produto homeopático que ele promove poderá desintoxicar.

Vá de metro satanás!

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