Brincar aos deuses

Brincar aos deuses é o que o Homem tem feito melhor, desde muito antes da edição do livro Who Should Play God?, em 1977. A fé no senhor era então – e é cada vez mais – uma condição embaraçosa mas, na dúvida, é melhor não abusar: há maçãs que não se devem comer, em particular aquelas que contêm uma neurotoxina chamada conhecimento.

Jeremy Rifkin, um dos autores do livro, afirma ter sido no seu escritório que começou o alerta mundial para os perigos da engenharia genética aplicada à agricultura, uma técnica de fazer plantas em laboratório representada amiúde nas redes sociais como um tomate com uma seringa espetada, não obstante não haver em lado nenhum do mundo tomates “ogm” à venda. Na verdade foi essa a primeira variedade a ser comercializada (1994): alargava o prazo de prateleira (uma boa forma de combater o desperdício alimentar) mas apresentava pouca rijeza e o consumidor, como se sabe, não se encanta com a flacidez.

Em Portugal o tema é relativamente novo, no entanto é aconselhável não contrariar a onda porque a doutrina já cá chegou bem estruturada e, muito embora seja uma missa em latim (onde a ladainha é dita de cor sem que ninguém saiba o que está a dizer), qualquer nuance estranha ao padre-nosso pode valer a excomunhão.

Uma das ironias deste tempo é que o pensamento dominante é muitas vezes aquele que se apresenta como alternativa ao pensamento dominante. A medicina é um exemplo: a histeria é muito maior quando se põe em causa a homeopatia do que quando se põe em causa o boletim de vacinas. Não é um mau sinal completo: significa que funcionam até ao ponto de se pensar que se passa muito bem sem elas.

Uma coisa que também parece muito bem conseguida para alguns é o alimento. Para outros ainda não – e se as calorias garantidas de alguns dos primeiros continuarem abundantes e baratas, a sorte dos últimos vai manter-se na mesma.

Os europeus sempre gostaram de brincar aos deuses, desde dividir a Terra como um bolo (esta fatia para a menina Carlota e esta para o menino Afonso), saquear certas paragens enquanto as mães faziam malha, definir a criadagem entre os que tinham mais melanina e por aí fora. Hoje arrependem-se muito de terem chicoteado, arrasado e violado – de modo que se limitam a decidir como é que os outros comem. Não têm vitamina A? Comam queques de cenoura!

Porque engendrar estirpes de arroz ao microscópio que em vez de betacaroteno nas folhas produzem betacaroteno nos grãos é brincar com a natureza, é usurpar o lugar de deus.

Os europeus (e os outros que não sendo europeus gozam das mesmas origens, da mesma mesa farta, da paz social e da saúde em dia) têm um problema com a engenharia genética onde ela não lhes faz falta: na agricultura. Mas para resolver a diabetes, que é um produto da fartura alimentar, já vivem bem com a insulina, que é um OGM de primeira água, muito bem aceite e difundido. É fácil de resumir: para resolver problemas de carência alimentar é contra-natura mexer em genes. Para resolver problemas de excesso alimentar já é porreiro mexer em genes.

É claro que o primeiro mundo está cheio de boas intenções como esteve sempre e Jeremy Rifkin é um ícone de visão, altruísmo e devoção à mãe-natureza, essa espécie de virgem maria pós-moderna. O problema é que a polarização das discussões tende a deturpar conceitos e a criar a ideia de que o que é melhor para a cultura de cenouras é o ideal para a cultura de trigo; que o que funciona bem no nosso jardim comestível é a chave para a agricultura universal – assim como a gerar hipócritas que com um punhado de rúcula que se dá bem em qualquer varanda, pretendem ter cultivado a própria ceia – e ai de quem pergunte de onde veio aquela massa, aquele bife e aquela quinoa.

A humanidade brinca aos deuses desde que existe, um jogo aliás comum a todas as espécies, que mais não fazem do que inventar e aperfeiçoar maneiras de superar a madrasta-natureza  mãe-natureza, sob pena de se tornarem o brinquedo de arqueólogos e outros estudiosos de coisas desaparecidas.

A agricultura é provavelmente a variante mais gritante e a própria invenção de deus já não é pequena prova do quão longe estamos da folhinha a tapar os genitais enquanto esperamos que nos tragam a desgraçada maçã.

Jeremy Rifkin é um excêntrico que tem feito carreira no activismo ambiental e a julgar por esta entrevista e outras aparições não parece ser amigo de prestar grande atenção ao que se passa no mundo. Joga a velha fórmula do iluminado bondoso que tem a solução-relâmpago para as sociedades rurais pobres (electricidade); o iluminado apocalíptico que ainda não percebeu que a profecia dos OGM está no mercado há vinte anos sem um único caso documentado de mau resultado; e o iluminado anti-lucro que desfia homilias contra patentes sem que lhe ocorra que nem todos podem enriquecer com processos judiciais espalhafatosos ou a aparecer ao lado de políticos que estão muito mais interessados nas montanhas que a fé move do que em compreender porque é que elas se movem e/ou se se movem de facto.

As capas da revista Sentinela são muito apelativas e são a base do painel que os discursos de Rifkin & Cia acabam por pintar na ideia do público. Mas por mais alheados que sejam da realidade não ignoram que a fé em si é uma coisa pirosa e é por isso que encadeiam pinceladas de ciência para alcançar um grupo muito mais vasto. Fazem à ciência como fazem à natureza: assumem-nas como entidades conscientes capazes dos mais estupendos milagres ou das mais ignóbeis destruições, conforme sejam respeitados ou ultrapassados os limites do brincar aos deuses. Só que a natureza é um conjunto e a ciência é um método para compreendê-la, de maneira nenhuma um pigmento que se use à medida de inspirações mais ou menos abstractas e definitavamente o oposto da fé, na medida em que depende absolutamente de factos para funcionar. Por isso é que as igrejas têm pára-raios, não vá o diabo tecê-las.

O espírito científico, que não é exclusivo dos cientistas, e que por vezes até lhes escapa, é um compromisso com a realidade que começa com uma grande curiosidade para entender o mundo e onde as certezas absolutas são altamente instáveis. Por isso é que os consensos são importantes e não têm nada que ver com uma festa num laboratório com gente a dar palmadinhas nas costas uns dos outros: são papéis, muitos papéis cheios de dados concretos recolhidos por especialistas e revistos pela concorrência até que um grande número de correspondências exista e se possa determinar alguma conclusão. É o que acontece com o aquecimento global, as vacinas, a engenharia genética nos alimentos etc. Quer agrade, quer não agrade às convicções pessoais. Quer sejam mais santificados ou mais excomungados pelos gurus pessoais.

Porque já dizia o Aleixo:

Os gurus são neste mundo

O melhor que há p’ra comadres

Podem ser bons, mas no fundo

P’ra mim são apenas gurus.

Ou o rabisco na casa-de-banho, com duas caligrafias distintas:

Deus está morto.

Assinado: Nietzsche


Nietzsche está morto.

Assinado: Deus.

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