A Nutella e o amor ao alarme

A comoçãozinha internética de há umas semanas foi a Nutella e a sua alegada propensão para o cancro. Disponível em várias línguas, foi a grande manchete da parte do mundo que vive obcecada com os venenos que a comida tem. A outra parte continua a ter só um problema, o veneno que é não ter comida.

A parte do mundo que vive obcecada com os venenos da comida trata a ciência como se fosse um pacote de sementes de chia: há dias em que convém e outros em que provoca obstipação. Na fase da Nutella convinha e por isso frisou bem que a conclusão tinha vindo da EFSA, a Agência Europeia de Segurança Alimentar (a mãe da ASAE, em resumo).

A EFSA não andou a estudar a Nutella, andou foi a testar o comportamento dos óleos vegetais quando expostos a determinadas temperaturas e a parte do mundo que vive obcecada com os venenos da comida fez ao relatório como faz ao pacote de sementes de chia: tirou o que lhe convinha e de acordo com a vontade de obstipar o trânsito social.

Em resumo, e do pacote da Reuters, esta versão muito menos interessante: “A Agência Europeia de Segurança Alimentar diz que o óleo de palma, quando refinado a temperaturas superiores a 200ºC, pode gerar contaminantes cancerígenos em quantidades superiores a outros óleos vegetais quando submetidos ao mesmo tratamento.

No entanto não se recomenda que os consumidores rejeitem o ingrediente, sendo necessário proceder a mais estudos de maneira a apurar o nível de risco.”

Apurar o nível de risco: saber a que exposição é que o agente se torna danoso. A água, por exemplo, é tóxica se bebida aos 6 litros de uma vez. A dose faz o veneno.

Os agentes preocupantes de que fala o relatório da EFSA são o 3-MCPD e o glicidol. E Alex Berezow, um microbiologista e comunicador de ciência muito afoito e cheio de sentido de humor, traduz a matemática do relatório para quem não é muito bom em mitocondrias e ligações de carbono. E refreia a histeria.

Rotular massivamente um produto tão bem sucedido como cancerígeno é uma maravilha para o meu negócio porque eu por acaso produzo uma pasta de cacau e amêndoa que não tem óleo de palma e – oh supremacia! – não tem óleo refinado nenhum. Para além disso, como a Nutella, deve ser consumido com muita moderação porque não é sopa nem açorda de bacalhau: é um doce. E os doces, já dizia a avó, são para de vez em quando.

Por falar em avó: uma das coisas de que elas falam bastante é de como trabalhavam desde pequeninas. No óleo de palma também há trabalho infantil e outros cancros, como a razia aos habitat para sustentar a procura (do óleo de palma e de sua eminência o açúcar de cana, entre outros) a que os títulos alarmistas  sobre o glicidol  tendem a tirar espaço vital. Para além dos títulos alarmistas, é preciso também puxar pelos pesados reposteiros agrícolas com auras de santidade e deixar a EFSA fazer o trabalho que lhe compete.

Reivindicar uma EELSA (European Environmental and Labour Safety Agency) que regule as condições de trabalho e os impactos ambientais ligados às matérias que entram e são produzidas no território europeu é capaz de dar uma excelente petição.

Até ver a Ferrero (que produz a Nutella) está comprometida com a Roundtable on Sustainable Palm Oil e não está na lista das empresas que a Amnistia Internacional reportou como batoteiras.

O que não é bonito é estragar por estragar o peixe dos outros para vendermos o nosso.

Fica a dica.

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