UM DOUTOR JOÃO POR DIA MANTÉM A MAÇÃ ARREDIA

O doutor João Baptista Soares declarou guerra à maçã. E é difícil condená-lo: andar a matar a cabeça anos a fio num curso de medicina para depois ter o consultório vazio à custa de uma coisa que se compra ao quilo deve ser frustrante. 

Uma maçã por dia mantém o médico longe (ou no inglês, que rima mais, an apple a day keeps the doctor away) é um dos poucos segredos que a Grande Farmácia não conseguiu guardar e que está disponível como uma espécie de pílula dourada doce e para mais a preço de genérico. O valor de uma consulta dá para ir a Alcobaça e trazer a mala do carro cheia, conserva-se bem e não precisa de receita. Eu também me passava.

E o doutor Soares, com efeito, passou-se e escreveu um livro revelador com grandes laivos de intimidade porque assenta na experiência pessoal de ter passado mal à custa de maçãs e outros paracetamóis do género – pão, fruta em geral, cerveja (a que chama deliciosamente pão líquido) e por aí fora. Açúcares. Ou hidratos de carbono, como se diz na gíria dos médicos. Um verdadeiro veneno, como se diz na gíria dos criadores de dietas da moda.

Não tivesse eu uma fila interminável de livros à espera que os mercados se animem e ia já comprar o Diário Íntimo da Dieta de um Médico que, a julgar por esta reportagem do Correio dos Açores, deve ser para o cérebro o que uma Bravo de Esmolfe é para a língua. O doutor João não só é um revolucionário de estetoscópio como é a versão portuguesa de Deepak Chopra, um senhor que conseguiu comprar uma casa enorme e um carro de andropausa à custa de revelações semelhantes e o mesmo tipo de salganhada ortográfica que faz crer que o alcance da escrita dos médicos, pela caligrafia ou pela sintaxe, nunca há-de ser para todos.

É que “a alquimia da variante cetogénica quântica da dieta mediterrânica” (da qual o doutor João é “o primeiro investigador, a nível mundial, a designar e a descrever, de forma pormenorizada”) tem tanta clareza como as descrições que vêm nas análises aos triglicerídeos – tirando a parte da dieta mediterrânica que a populaça conhece bem e que tem muito boa fama. Parece que o sucesso do o nosso homem está sobretudo em ter recuperado o peso dos vinte anos mantendo a matreirice dos sessenta.

A ver se nos entendemos: “esta variante nutricional inovadora tem um papel fundamental no combate às doenças crónicas não transmissíveis que afectam grandemente a civilização moderna, tais como a diabetes, a hipertensão, o colesterol aumentando no sangue e outras doenças cardiovasculares e osteoarticulares”. Qualidades reconhecidas à Dieta Mediterrânica tradicional.

Só que a variante tradicional é basicamente um estilo de vida activo com uma alimentação variada – sazonal e regionalmente -, rica em hidratos de carbono complexos, algumas gorduras e proteínas. Nas regiões costeiras abundância de peixe, no interior moderação na carne e derivados. E de forma geral muito pão, leguminosas, batatas, legumes e frutas. Azeite e algum vinho. E trabalho para gastar a glicose.

Na variante do nosso pioneiro, oitenta por cento da dieta será de gordura, não importa qual: “óleos de coco, azeite de oliveira, banha de porco, manteiga, carne gordurosa, óleo de palma, queijo, carnes de toda a espécie e qualidade, bem como peixe de todo o tipo”. E ovos, muitos, dez por dia à vontadinha. E não havendo aqui nenhum ingrediente que se desperdice falta contudo à lista moderação, bom pão e a eliminação definitiva da palavra mediterrânica pela paz às almas de Ancel Keys e Elizabeth David.

Se a UNESCO classificou esse estilo de vida como património imaterial da humanidade foi para que se salvasse do desaparecimento iminente, não para que se afundasse mais depressa às mãos do chico-espertismo que está vivo e rijo como um moço de vinte anos.

Há certas parcelas no discurso do doutor João Baptista Soares que são inteligíveis e difíceis de contestar: moderação no álcool e no açúcar, reforço da educação alimentar dos cidadãos para prevenir doenças e até um merecido estrelato à banha de porco que continua a ser olhada de lado (provavelmente por não ser cara mas essa é outra conversa). Mas todos os dias, em vez da maçã? E sal iodado em vez da promoção dos lacticínios dos Açores às grávidas dos Açores?

Este homem é médico do Serviço Nacional de Saúde (um património a proteger) e já foi director da respectiva Direcção Regional. Os colegas insurgiram-se contra o conteúdo do livro editado pela Chiado Editora (que como se vê não escreve só frases fofinhas para partilhar nas redes sociais), chamando-lhe pretensioso.

Magro e seguro, o doutor põe a pirâmide dos alimentos de pernas para o ar e promete fragilizar os esquemas do Grande Ginásio, da Grande Insulina, da Broa de Avintes, da Maçã de Alcobaça e da Grande Cevada; assumindo o papel de sucursal açoreana de uma firma de médicos que um pouco por todo o mundo tomaram o gosto à comunicação de tretas perante um público quase sempre fragilizado que recebe de bom grado soluções para os problemas. E que devia, provavelmente, comer mais maçãs.

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